Sobre murro em ponta de faca

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"Tem destinos que são para se cruzar e outros que, nem cruzando, vão se encontrar", ouvi isso na novela que só me agradava sua fotografia. É irônico como você às vezes está focado só naquilo que lhe interessa e algo toma sua atenção. E joga a verdade na sua cara. E continua andando por aí, como se nada tivesse acontecido. 

A mulher da novela usando maquiagem para sua pele parecer mais envelhecida do que realmente é tinha algo importante para me dizer. Acho que ela nem sabia disso. Talvez nem o roteirista soubesse. Mas a atriz que só reproduzia mais uma de suas diversas falas do script me poupou de sabe-se lá quantos meses de terapia para entender tudo isso. 

Entender que tem linha que não passa de jeito nenhum pelo mapa da nossa vida. Não adianta: tem coisa que nasceu para não ser. 

É como se fossem dois ímãs: você nunca vai conseguir grudar um no outro. Você já tentou fazer isso? Uma força que sai sei lá de onde repele aquelas duas partículas. A gente pode passar o dia inteiro tentando aproxima-los, sem sucesso. Da mesma forma que a gente fica quase uma vida inteira insistindo naquilo que uma força maior decretou com veemência: jamais. Pode esquecer, meu amigo. 

Eu consigo até imaginar forças sobrenaturais reunidas numa sala se divertindo ao brincar de destino. Imagino-as colocando duas miniaturas de humanos num tanque de água, separados um do outro por um vidro. Esses ser humanos tentam e tentam e tentam se aproximar, nadam, dão murro em ponta de faca e: não. As forças estão lá, rindo das consequências de suas próprias imposições. 

Aceitar que a gente precisa deixar algumas coisas de lado é difícil. É doloroso entender que nossas vontades nem sempre vão ao encontro do percurso das coisas. Tanta coisa já aconteceu e não aconteceu na minha vida - e eu sei que nunca vou entender. Sorte que, se tem algo do qual o mundo é cheio, são de coisas. Coisas para acontecer e nos reinventar. Coisas para nos fazer esquecer daquelas que não aconteceram. 

É estranho, né? Mas a verdade é que só uma coisa pode curar outra. Assim como um tempo novo deixa o velho lá para trás. De coisa em coisa a gente vai se construindo, desmoronando e reconstruindo em seguida. Porque tijolo não falta: não deixe seus castelos destroçados para sempre.