Hoje eu quis te falar dos ipês


Às vezes a gente só repara nos ipês quando eles florescem, não é? Hoje eu resolvi te contar a história de um. 

Havia uma árvore bem torta na frente do trabalho, e eu sempre estacionava ao lado dela. Alguns me alertavam que ela poderia um dia cair em cima do meu carro. Será que o seguro cobriria aquilo? Mas eu sempre confiei em suas raízes. 

Aquela árvore torta que nem fazia uma boa sombra sinceramente começava a me irritar. Que coisa, aqueles galhos abandonados pelas folhas, deixando o frio ainda mais antipático. Entrei de férias em julho, começando a duvidar das raízes, pensando que aquela árvore inútil poderia nem estar mais lá quando eu voltasse. 

Duas semanas de ferias passam voando, você deve imaginar. Mal descansei e já estava de volta. O mesmo tempo que passou voando foi o necessário para que aquela árvore tão sem graça preenchesse um pedaço do céu azul com as suas flores rosas. Quantas flores! Meu presente diário, eu pensava.

É, meu amigo. Floresceu. Assim como algumas coisas, situações, sentimentos, floresceu rapidamente. A natureza conseguiu transformar, em questão de dias, o feio no belo. O triste no feliz. O passado no presente: meu presente diário.

E todos os dias aquela árvore tão rejeitada anteriormente deixava flores no meu pára-brisas, no chão, no meu caminho. Todos os dias eu já a avistava ao longe e meu coração se enchia com a esperança de aquele dia sim, seria bom. Por algumas semanas aquelas flores rosas por todos os lados foram o meu refúgio e a minha alegria. Lindo, né? - eu sempre dizia. 

Hoje, enquanto te escrevo, observo a mesma árvore que desfloreceu. Essa palavra nem existe, eu sei - mas as flores se perderam por aí. Morreram. Se dedicaram tanto a colorir várias rotinas e terminaram no chão, amassadas, sem cor. Tem coisa que perde a cor, você bem sabe. Tem coisa que surge do nada, assim como aquelas flores rosas no céu, deslumbra, encanta e perde a cor. Descoloriu. 

Nos galhos secos restam algumas flores derradeiras - elas estão lá, agarrando-se ao último resquício de vida. Elas tentam mostrar que ainda há cor, ainda há esperança. A esperança para mim, hoje, parece justamente aquelas flores tão frágeis: pequena, prestes a cair - só falta um vento um pouco mais forte. 

Acho que os ipês existem para a gente lembrar que nem tudo são flores, meu amigo. Nem tudo são flores, mas as flores são lindas. A gente sempre espera por elas. Eu não esperava por essas flores quando elas surgiram: a surpresa foi tão boa que foi difícil dizer adeus. Mas as patas-de-vaca são lindas também, e chegou a hora de elas florirem. Talvez seja a vida me mostrando que os ipês são incríveis, mas não são únicos. São belos, mas não eternos. Ano que vem eles voltam e eu volto a dizer: obrigada. Obrigada pelo presente diário.

Uma foto publicada por Nadine Vieira (@nadinefv) em