Ainda tenho medo

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Ainda tenho medo de como eu sinto seu cheiro do nada, em qualquer situação. Sabe como é: eu não esperava ter um novo perfume favorito tão rápido assim. Ainda tenho medo dos poemas que eu escrevo, dos versos nos quais te encontro e do ângulo perfeito que a sua mandíbula forma. Ainda tenho medo de fechar os olhos e mais ainda de abri-los alguns segundos depois - é o medo de a luz aparecer junto com a sua ausência. 

É, eu ainda temo tanta coisa. Temo a felicidade, cada dente do seu sorriso que me esmaga da forma mais poética que isso possa soar. Temo cada sonho, cada passo e cada onda nervosa que percorre e transita pelos nossos corpos. Na verdade, o temor é de a felicidade virar tristeza, seu sorriso ir embora, os sonhos se tornarem pesadelos e as ondas se encerrarem assim como nos monitores de acompanhamento cardíaco. É como se em cada momento eu conseguisse ouvir, bem lá no final, o som agudo que nos indica que tudo acabou. 

Eu que sempre bati no peito com orgulho por não precisar de ninguém, hoje tremo só de pensar em como eu preciso da calma que acompanha sua voz. Como eu preciso falar, às vezes esbravejar, descansar a mão no seu colo como quem coloca a alma no varal para dar uma espairecida. É como se cada pedaço do seu corpo me transportasse para um lugar onde não houvesse rotina, ansiedade, hora marcada e job atrasado. 

Ainda tenho medo do bem que me faz - como explicar? Sinto um medo absurdo de você se perder no caminho louco dos meus pensamentos e preferir deixar essa viagem pra lá. Eu me acostumei tanto a esperar o pior que, quando o bem chega, é como se doesse. Dói tentar tirar a esperança da gaveta e colocá-la em jogo novamente. Dói, porque depois que você se acostuma com a luz do sol, fica difícil fechar as janelas novamente.

Eu sigo com a respiração entrecortada de quem tenta correr após levar uma facada no abdômen. Sigo tentando soltar as amarras e alçar voo lado a lado com o amor. Sigo com você na mente, nos olhos e coração - mesmo que ainda por trás das cortinas pesadas e empoeiradas. Sigo esperando que você siga junto, porque, você sabe: eu ainda tenho medo de tudo o que vem a seguir.