A gente segue gritando

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Chega a ser prolixo o quanto precisamos clamar. Chega a sangrar a garganta nosso grito de dor e desespero. Porque aquela mulher é minha mãe, minha irmã, minha melhor amiga, a moça da padaria para a qual eu digo todo dia "bom dia, seis pãezinhos, por favor". Faltavam-me palavras para expressar minha indignação, meu horror e repulsa - mas quando eu deitei a cabeça no travesseiro, antes de dormir, os pensamentos jorravam: poderia ser comigo. Na verdade, sou eu ali. Somos todas nós. 

Porque quando uma mulher é agredida, nós todas somos. Dói em cada uma de nós toda essa invasão, essa maldade, esse desrespeito com a nossa humanidade. Intimidade, liberdade, sanidade - quem decidiu que vocês poderiam simplesmente passar por cima disso? Como alguém se sente no poder e posição de derrubar todos esses direitos que cada uma de nós deveria ter? 

É duro ter de repetir todos os dias que não interessa qual roupa ela estava usando. Onde ela estava. Com quem ela estava, se estava. Não interessa se ela sequer gritou: o pavor consegue nos imobilizar, acredite. É duro ter de esbravejar incessantemente que não, a culpa não é da vítima. É duro, é mais duro ainda perceber que tem gente que concorda, apoia e incentiva. Gente que comenta uma tonelada de coisas absurdas e não precisa nem responder por isso. 

É muito doloroso perceber a cultura viva do estupro que (ainda) nos rodeia. É muito doloroso ser a mulher que, ao mesmo tempo, é exaltada nas músicas de Chico, Tom e Erasmo, e calada, agredida, invadida e desrespeitada por toda uma sociedade. O agressor não é apenas aquele que, diretamente, violenta física ou psicologicamente uma mulher. É aquele que diz "bem feito". É aquele que diz "mas se ela não estivesse..."; é aquele que diz qualquer "mas"; é aquele que segue acreditando que a mulher possui qualquer ônus em tudo isso. 

E a gente segue aqui: gritando, se manifestando, repudiando. Infelizmente, a gente segue temendo também. A cada esquina, a cada encarada na volta do trabalho. A gente segue pedindo consciência e conscientização: ensinem seus filhos a serem humanos, não monstros. Não sejam monstros. Sejam humanos, tenham empatia. Respeitem.