Fechada para balanço

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Sempre gostei dos mercadinhos de bairro. Eles sempre têm o que você precisa (ou quase), não há dificuldade para estacionar e eles estão localizados a duas ou três quadras de casa. Em um dia de verão - por mais poético que isso possa soar - eu fui até ao mercadinho e ele não estava aberto. Que decepção! Uma placa dizia: "Fechado para o balanço anual". Mas, passada a decepção momentânea, eu até agradeci pelas quadras a mais que tive de percorrer para chegar ao supermercado. Aquela plaquinha fez brotar em minha mente quase que um insight sobre nossas relações interpessoais. 

Enquanto dirigia até o mercadinho (perdoem minha atitude nada ecológica de usar o carro para andar duas quadras - as tardes de verão daqui não são nada poéticas), estava justamente pensando e agradecendo por uma pessoa incrível que havia surgido em minha vida. Ao mesmo tempo, pensava em todos aqueles que tomaram a saída como direção. E o que seria isso, se não um balanço?

É aí que eu quero chegar: nós também precisamos fazer nossos balanços. Porque, por mais que nossa vida se assemelhe a uma estação de metrô, onde tantas pessoas vêm, vão, percorrem duas ou dez estações, chegam ao final da linha ou não, há uma grande diferença entre as duas: os que passam por nossas vidas têm um rosto. Despertam sentimentos. Emoções. Amor, ódio. Eles não são uma simples massa homogênea que, todo e rotineiro dia, encostam seus cartões pré-pagos no sensor da catraca. Eles participam da nossa existência e uma hora deixam de participar, também.

E então entra em cena a contabilidade da vida. Muita gente sai, muita gente entra, poucos ficam - na maioria das vezes é assim. Mais do que relembrar quem chegou, quem partiu, é preciso sempre agradecer. Agradecer porque as pessoas aparecem no momento certo de nossas vidas - e as deixam também na hora exata. Alguns a gente descobre que eram bem menos do que se pensava, mas a gente também se surpreende com outros. Está aí a graça dessa nossa estação.

O importante é saber que, embora a economia passe por uma recessão, nossa vida nunca passa. Sempre vai aparecer alguém. Sempre teremos de atualizar nossos balanços. E se você está aí, sem esperanças, achando que suas chances acabaram: estamos só no começo do ano, seu balanço ainda terá muitas páginas - e o segredo, meu amigo, é aproveitar cada uma delas da melhor forma possível.