Resenha: Gayle Forman - Eu estive aqui

Eu estive aqui nos dá essa sensação estonteante de olhar contra a luz e depois essa mesma luz iluminar cada canto sombrio e nos mostrar a verdade.


Eu estive aqui estava na minha booklist de final de ano pelo primeiro motivo de que amo os livros da Gayle e, segundo, pelo seu tema intrigante: o suicídio de uma jovem. 
Cada página desse livro é uma pedra no estômago. Imagine se sua melhor amiga ingere um veneno industrial, sem ao menos deixar uma pista antes? Pois é isso que Meg faz. O livro começa com um e-mail de despedida escrito à Cody por ela, programado para ser enviado várias horas depois de sua morte. Cody não consegue entender por que sua melhor amiga, tão inteligente, autossuficiente e incrível resolveu colocar fim à própria vida. O pior, ela não entende como não percebeu ao menos um indício de tudo isso. 


"Chocado não é bem a palavra (...) O que aconteceu com Meg é totalmente diferente; é como acordar em uma manhã e descobrir que agora você está morando em Marte." 

Como foi praticamente criada pelos pais de Meg, ela vai até à cidade onde a amiga cursava faculdade, recolher suas coisas e vai descobrindo outro lado da vida de Meg. Ela conhece seus colegas, lugares que a amiga frequentava, paixões e até dois gatinhos salvos pela amiga - dos quais ela nem sabia da existência. 

A perda não é, nem de longe, aceitável, então Cody começa a investigar mais a fundo os motivos pelos quais a amiga cometeu suicídio e - não são nada bons. Confesso que essa parte me surpreendeu muito, pois ao ler a contracapa do livro, imagina-se outro desdobramento da história. 


"Ela era o meu sol, e então o meu sol se apagou. Imagine só se o Sol se apagasse de verdade. Talvez ainda restasse vida sobre a Terra, mas você iria continuar querendo viver aqui? Será que eu quero continuar vivendo aqui?" 

Eu estive aqui narra a dificuldade de se referir às coisas no passado. Mais que isso, mostra como nós muitas vezes colocamos filtros em tudo que acontece conosco, enxergando de forma alheia à realidade. Mostra também como as decisões das pessoas são exclusivamente delas, e não há nada que possamos fazer a respeito - por mais que elas nos afetem em demasia, posteriormente. Eu estive aqui nos ensina que às vezes não é possível eleger um culpado para nossa dor e a única coisa que podemos fazer é aceitá-la.


"Queria não ter feito isso. Porque, quando o olho pela última vez, ele exibe um esgar que é uma mistura de raiva e culpa. Conheço muito bem essa expressão: eu a vejo todos os dias no espelho." 

Gayle e seu jeito de escrever, como sempre, fizeram-me devorar o livro - não há como parar de ler. Não há como também não se apaixonar por Ben McAllister - o dono dos olhos mais entorpecentes e que está nessa bagunça de Meg, Cody, e suicídio. Por mais que o livro mostre a dor, raiva e sofrimento, num clima pesado do começo até as últimas páginas, é impossível não ter esperanças de que ao menos algo acabe bem, ou então tudo. 


"Ela me encarou, e eu sabia que o que estava lhe pedindo para fazer, o que Deus nos pede para fazer, o que estou pedindo para todos vocês fazerem não é fácil. Deixar nossas feridas cicatrizarem. Perdoar. E, às vezes, o mais difícil de tudo: perdoar a nós mesmos. Mas, se não fizermos isso, estaremos desperdiçando uma das maiores dádivas de Deus para nós: o seu remédio milagroso." 

Eu estive aqui vem para provar que apesar de perdas, inconformação e dor, a gente é capaz de continuar aqui. Apesar das adversidades, há bem mais alternativas do que "pegar o último ônibus".