Renato Russo, arte e dia-a-dia

Fonte: We Heart It
Há alguns dias, eu estava na rodovia com a minha irmã e escutávamos um cd da Legião Urbana que gravamos há muitos anos. Começou a tocar "Ainda é cedo", em uma versão estendida bem peculiar.
Renato Russo começa a conversar com o público e mostrar como é uma passagem de som:
"Então eu vou pedir pra aumentar a guitarra, por favor (...) O baixo tá alto demais! Então a gente vai pedir pra abaixar o baixo aqui no palco... Isso, a guitarra aumentou demais, pode abaixar... Isso. Agora, Fred, o violão, vamos lá..."
Quando chega essa parte da versão, eu sempre fico em êxtase, porque o Renato um pouco depois diz uma das declarações mais lindas sobre o amor. E então...
A minha irmã muda de música.
"A melhor parte da música é agora!!", eu disse.
"Ele não para de falar, a gente já vai chegar em Birigui (nossa cidade) e ele vai estar falando ainda!", minha irmã justificou. 

Para quem não conhece a música, depois da passagem de som, ele canta os últimos versos e diz:
"Vocês querem saber por que essa história acabou? Porque eu gosto muito de dar ordem: se as coisas não tão do jeito que eu quero, eu mando aumentar a guitarra, mando abaixar a guitarra... Mas isso você não pode fazer, principalmente no amor. Eu nem sei que direito o que que é o amor! E você não pode ter uma relação de força, de poder, sabe... Tem que ser uma outra coisa. E eu já sofri muito na vida por causa disso, sabia? Tanta gente já foi embora da minha vida por causa disso, porque eu sou mandão... Sabe qual é? Com a melhor das intenções..."

Renato lá nos anos 80 já sabia de uma coisa que muita gente não sabe até hoje. Mas não foi isso que eu pensei naquele momento em que a minha irmã mudou de música. Pensei em como a gente não consegue, muitas vezes, reconhecer a beleza e a arte tanto em obras quanto no dia-a-dia.

A gente olha para uma tela e não enxerga os pedaços de alma do pintor no formato de respingos de tinta; a gente lê um texto e não imagina como ele é cheio de memórias, sentimentos, dor e esperança; a gente ouve uma música e às vezes nem suspeita da história de amor por trás dela; a gente olha uma pessoa na rua, como quem olha a capa de um livro, nem imagina tudo o que se passou no interior de suas páginas e, o pior: a gente julga.

Julgamos o amor dos outros, a música, o desenho, o texto dos outros. Batemos o martelo frente à qualquer demonstração de arte sem senti-la, sem vivê-la - sem perceber que ali há muito mais do que um espectador e uma manifestação artística. Falta sensibilidade e sobram vereditos. 

Por trás de cada som, de cada texto desse blog, de cada fotografia, pintura - de cada arte, enfim - existe uma história. Mais que isso, existe cada um de nós. Sentir o outro através disso tudo é essencial. A tatuagem da minha amiga e um seriado dizem: "Somos todos histórias, no final" - histórias que a gente deve apreciar como se fossem um Da Vinci, mesmo que não estejam penduradas em alguma parede do Louvre. 


"Ela gostava de todas essas músicas
'cê tá aí em algum lugar, eu sei
Foi pra você."