A gente precisa aprender a dizer oi, também

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Meu primeiro post aqui foi afirmando que a gente precisa aprender a dizer tchau. Hoje, o blog faz três meses e eu continuo acreditando veemente nisso.

Mas há alguns dias, na iminência da minha vigésima volta ao redor do sol - completada na última quarta-feira - eu percebi mais uma coisa: a gente precisa aprender a dizer oi, também.

Ainda restam sete anos para que meu Saturno retorne, mas antes dele várias coisas decidiram retornar: amizades, sensações e situações. E ao contrário do que alguns pensam - que devemos atirar nosso passado de cima de um penhasco e garantir que a queda foi fatal - nós devemos abrir os braços para receber de volta aquilo que é bom. É como ficar procurando incessantemente roupas novas em várias boutiques, quando aquela que compõe o look ideal na verdade está esquecida no fundo de uma gaveta.

Porque a vida é como uma caixa na qual a gente decide o que quer guardar dentro. Tem gente que opta por guardar mágoas, tristezas e lamentações; alguns preferem guardar apenas aquilo que os outros deixaram de bom em suas vidas. Essa caixa tem espaço suficiente para guardar o passado, presente e reservar um local para o futuro. Mas, por favor, não perca espaço guardando coisas sem nenhuma utilidade - guarde um passado vivo e um presente cheio de amor. 

Ontem um grande amigo me disse que às vezes o que falta é justamente isso: a velha guarda. As pessoas com as quais você cresceu e, por mais que elas tenham protagonizado mais o seu passado do que seu presente, elas continuam sendo saudade boa e presente memorável, mesmo que raro - esse é o passado vivo. Acho que você consegue me entender. A gente cresce e toma nosso rumo, conhece pessoas e decepções novas, mas no fundo todo mundo ainda é aquela criança da sétima série que era feliz e não sabia (ou sabia tão bem que vivia cada momento da melhor forma possível e nunca parava pra pensar "essa é a melhor fase da minha vida"). 

Várias peças sairão da sua caixa, algumas dessas retornarão e outras novas também vão surgir. Nesse momento quem decide como lidar é você: porque no final das contas, a gente precisa aprender a dizer tchau e oi. Sim, a cada dia que a gente cresce, a gente percebe como é difícil crescer - é como um problema de matemática no qual, primeiramente, você precisa descobrir quem é o x e depois o y, z, w, n, o, p, q. Depois vem o alfabeto grego e sabe-se lá qual mais. 

Hoje eu fico de braços abertos para aquilo que é bom: coisas novas ou remanescentes. Caio Fernando Abreu disse que  as coisas "voltam mais bonitas, mais maduras, voltam quando têm de voltar, voltam quando é pra ser" - quase tudo. Que saibamos diferenciar as mais bonitas e abracá-las - todos merecemos ter caixas lindas. 

Durante muito tempo eu quis muitas coisas e, a cada vela apagada, um pedido era feito. Ao soprar a vela dos vinte eu percebi que eu só queria uma coisa para todas as próximas velas: que eu tenha a caixa mais linda do mundo.