Saia um pouco do sofá

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Alguns dias atrás, estava planejando uma viagem com minha amiga. 
"Mas vocês querem ir justamente para a cidade mais violenta do Brasil?", questionaram. 
(Queria ressaltar que pesquisas indicam João Pessoa como a cidade mais violenta do Brasil - e esse não era o nosso destino)

Mas a questão não é essa. A questão é que a gente cresce e vai ganhando tantos medos! Aos doze, eu sequer pensava ao subir em um brinquedo, desses que reviram o estômago, e hoje penso três vezes antes de subir no carrinho da montanha russa. Se a gente não se atentar a essas coisas, virar adulto é a coisa mais sem graça a acontecer em nossas vidas. 

Eu não estou pedindo para você pular de um penhasco; muito menos entrar de peito aberto em um tiroteio. Só peço que você saia um pouco do sofá. Desligue a televisão que insiste em passar Datena e Marcelo Rezende; que insiste em esbravejar "cadeia neles!" e só transmitir ódio; que insiste em mostrar que só existem coisas ruins no mundo e que não devemos viver a vida. 

Aí é que está: estamos com medo de viver. O perigo pode estar em um arrastão no Rio ou a duas quadras de casa. A gente não busca o perigo: a gente busca viver. 

Falta colocar mais o pé no chão, deixar a chuva molhar o rosto e estragar a chapinha. Falta sentir felicidade no coração a milhão. Falta perceber que a vida é muito mais do que a gaiola a nós imposta - a qual enxergamos como conforto e segurança. 

Eu que não me sento no trono de um apartamento com a boca escancarada, cheia de dentes, esperando a morte chegar - eu também não, Raul. Que a gente prefira mares a sofás, ares a gaiolas, paixão a estagnação. Que a gente lembre de viver, enfim.